À conversa com a Psicóloga Benedita Moutinho – 6

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À conversa com a Psicóloga Benedita Moutinho – 6

Hoje a conversa com a nossa Psicóloga é sobre IRMÃOS, uma reflexão sobre os vários relacionamentos. Ciúmes, rivalidade, partilha e cumplicidade.

Vejam o que diz a nossa especialista e as dicas que nos deixa.

Espero que gostem.

Bom fim-de-semana!

❤️

IRMÃOS

A Mariana pediu-me para que o tema deste mês fosse “os ciúmes dos irmãos”. Contudo, prefiro que façamos uma reflexão mais genérica sobre o Relacionamento entre Irmãos, que pode (ou não) incluir sentimentos de ciúme, rivalidade, mas também partilha e cumplicidade.

Ao falar deste tema, inevitavelmente, sinto necessidade de vos fazer ver que sou a irmã mais nova de uma fratria de três e que esse facto sempre contribuiu muito para a minha formação pessoal, para a forma como encaro as ditas famílias numerosas e, também, para a família que eu própria estou a construir. É importante entendermos que as nossas experiências como filhos e como irmãos vão condicionar o papel de pais que queremos assumir.

As relações entre irmãos são únicas, diferentes de todas as outras que desenvolvemos com amigos ou outros familiares. Dentro de casa somos nós próprios, sem tabus e sem vergonhas, partilhamos o tempo e também o espaço, temos as mesmas rotinas e hábitos, somos filhos dos mesmos pais. Vivenciam-se momentos de lazer, de descanso, de alegria, de tristeza, assim como momentos de maior tensão inerentes aos seres humanos.

Muitas vezes pergunto aos pais, em consulta, como se dão os seus filhos e a resposta é, quase invariavelmente, “Dão-se bem… o normal. São irmãos!”.

E é mesmo isto. O normal entre irmãos é existir uma relação que oscila entre conflitos e cumplicidade máxima. É saudável. Por este motivo os irmãos são uma das ferramentas que a vida nos dá para aprendermos a desenvolver competências sociais e fomentar valores e princípios fundamentais à pessoa que estamos a formar.

Para mim, a oportunidade de ter irmãos é uma dádiva. Acredito profundamente, com base teórica e prática que, mesmo no caos, a Matilde, o Tomás, a Maria do Carmo e a Francisca são uns sortudos por se terem uns aos outros.

O nascimento do 2º Filho

Quando se inicia a maternidade/parentalidade temos tendência para nos debruçarmos muito sobre esse bebé – dedicamo-nos a 100% às rotinas, levamos sempre muito a sério todos os horários e recomendações, somos um pouco complicados no que tocas às saídas em família (ou mesmo em deixar o bebé)… Enfim, somos pais de primeira viagem e em processo de crescimento e aprendizagem.

Quando chega a notícia de que vem outro bebé a caminho, curiosamente o nosso primeiro pensamento vai para o filho mais velho! Surgem dúvidas quanto ao medo que sofra de ciúmes, em relação a possíveis regressões no comportamento, à forma como nós, pais, iremos gerir o tempo e o espaço e, por fim, o amor. Será que seremos capazes de amar outro bebé com a mesma intensidade e dimensão? A resposta aparece imediatamente, pois para nós o amor só cresce e há sempre espaço no coração dos pais para mais um!

No entanto, na cabecinha dos mais pequenos, o amor dos pais terá que ser dividido. Como se já não bastasse terem de dividir a atenção, o tempo, os brinquedos e, às vezes, o próprio quarto.

Então como podemos preparar a chegada de um irmão?

1. A notícia deve ser dada só após o primeiro trimestre, quando a gestação já ultrapassou a fase de maior risco. Dependendo da idade e personalidade do filho mais velho, poderá ser feita em forma de brincadeira, poderá ser utilizada uma história de ilustração (existem sempre muitos livros que ajudam a criança a visualizar os acontecimentos e a sentirem-se mais seguras) ou simplesmente uma conversa entre os três.

2.Mesmo que os pais estejam ansiosos com a reacção da criança, deverão tentar não o demonstrar. Comuniquem a notícia com entusiasmo, acreditando que vai correr tudo bem e que se trata de uma mudança positiva. Os pais são modelos dos filhos; se eu mostrar uma expressão de felicidade eles terão essa referência e confiança.

3.Peça ajuda ao filho mais velho para a preparação do quarto ou do enxoval do bebé e vá explicando os passos que se seguem ao nascimento.

4.Procure dividir justamente as atenções entre os dois irmãos. Não superproteja o mais velho pedindo às pessoas que visitam o bebé para trazerem presentes para ele, pedindo que não peguem o bebé ao colo para que não sinta ciúmes, evitando amamentar na sua frente, etc. Pelo contrário, é importante que o irmão se habitue às mudanças e rotinas do bebé. Valorize sim o facto do irmão mais velho ser crescido e os crescidos podem fazer muito mais coisas que os bebés!

5.Reserve tempo para estar só com o filho mais velho. A rotina escolar não deve parar mas, após a saída da escola, é possível ir ao parque passear ou ir comer um gelado.

6.Se começarem a surgir atitudes mais agressivas ou queixas por parte do irmão mais velho pode ser a altura de conversar sobre esses sentimentos, sem recriminar mas, também, não mostrando total aceitação. Podemos ouvir e demonstrar compreensão (podemos dizer que também já sentimos isso pelos tios, se for o caso de existirem) e, por fim, fornecer estratégias e orientação para estimular uma relação mais positiva.

Crescem as crianças crescem os conflitos

Por melhor que seja a relação entre irmãos irão sempre existir momentos de conflitos. E são também esses momentos de discussão, rivalidade e disputa que os ajuda a crescer emocionalmente, pois devem sempre terminar com aceitação, pedido de desculpa, empatia, humildade e cumplicidade.

As crianças nos primeiros anos de vida são por natureza, um pouco egocêntricas, tendem a acreditar que o mundo e as pessoas giram à sua volta e, por isso, sentem dificuldade em posicionarem-se no papel do irmão, ceder, serem flexíveis, partilhar, dividir, … São estes sentimentos que geram os conflitos e que, muitas vezes, os pais não são capazes de controlar.

Deixo aqui algumas sugestões que, penso, podem ajudar na gestão familiar destas situações que, mais uma vez reforço, são parte normal e, até, saudável do desenvolvimento e formação pessoal e quase sempre inevitáveis.

1.Os conflitos surgem habitualmente quando os pais estão distraídos ou ocupados com outras tarefas, ou seja, quando os irmãos estão por sua conta a brincar. Nestas alturas aproveite que está a fazer alguma coisa e não corra a tentar resolver por si a situação. Seja paciente e aguarde para entender se, de forma autónoma e espontânea, eles serão capazes de resolver o problema.

2.Se a situação estiver mais descontrolada aproxime-se e tente primeiro acalmar as crianças. Quando for mais oportuno converse com cada uma de forma a permitir que exponham os seus sentimentos e opiniões.

3.Não tome partidos. Não defenda sempre o mais novo “só porque é pequenino”. Isto pode potenciar a rivalidade e o ciúme. Além de que os irmãos não escolheram a ordem de nascimento e o respeito entre eles deve ser mútuo.

4.Forneça alternativas e tente negociar a aceitação de cada parte. Aja como mediador.

5.Se for recorrente existirem agressões físicas entre os irmãos mostre-se muito zangada com isso. Explique que não é aceitável descontrolarmo-nos a esse nível e que só perdemos qualquer razão que possamos ter.

6.Se existirem “queixinhas” devemos mostrar aos filhos que estas podem diferir entre dois tipos. Não concordo que se proíbam as queixas pois é importante que os filhos saibam que podem contar com os pais quando alguém lhes faz mal, por isso é fundamental saber distinguir quando é que devem ser feitas. Se o irmão fez uma asneira que não magoou ninguém e que não partiu nada não é necessário fazer “queixinha” aos pais. No entanto, se vemos o irmão a prejudicar alguém, a ser mau propositadamente, a estragar ou a partir alguma coisa ou, mesmo, a fazer alguma asneira arriscada, aí é aconselhável e justificável que se conte aos pais.

7.Evite fazer comparações entre os filhos. Somos todos diferentes, identificamo-nos mais ou menos com filhos diferentes, lidamos melhor ou pior com determinados feitios, toleramos melhor ou pior certas posturas ou personalidades. Mas, acima de tudo, somos pais e devemos aceitar cada filho como é.

8.As regras e tarefas de casa devem ser divididas e exigidas equilibradamente. Todos são capazes de arrumar e ajudar. Não seja injusto.

9.Se não quer que os irmãos tenham discussões evite-as também. Seja modelo de resolução de problemas quando também surgem entre os adultos.

10.Quando as crianças são um pouco mais velhas podemos apostar na elaboração de um quadro com as regras e direitos dos irmãos. Pode até ser um jogo divertido para se realizar em família e que permite uma reflexão sensata do verdadeiro papel dos irmãos.

A realidade da infertilidade!
À conversa com Madalena Mexia Leitão!
2 Comentários
  • Daniela

    Responder

    Boas dicas!
    Fico feliz por saber que estou no caminho certo
    Beijinhos

    • Mariana Seara Cardoso

      🙂

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